quarta-feira, 1 de abril de 2026

 


História de Caio Carpo

Lenda de Portugal


   Esta história passou-se há muitos e muitos séculos, muito antes ainda de Portugal existir. Corria o ano de 44 e a Península Ibérica era parte do Império Romano. Uma multidão festejava as bodas do ilustre Caio Carpo, não longe do local onde hoje fica a cidade de Matosinhos. A sua noiva era Cláudia, uma linda rapariga nascida em Gaia, na família de um pretor romano. Gente rica e poderosa, está bom de ver.

   A música animava aquela hora feliz. Bebia-se, comia-se, bailava-se e alguns cavaleiros exercitavam-se com as armas.

   No calor da festa, Caio Carpo decidiu montar no seu belo cavalo branco e entrar de rompante pelo mar dentro, mostrando a força e destreza de que era capaz. Mas o cavalo não abrandou o galope, cortava as ondas, como que atraído por uma embarcação que passava ao largo, com a proa voltada a norte. E tão longe se aventurou que o perderam de vista os que na praia admiravam aquele prodígio. O coração de Cláudia bateu mais rápido, embora soubesse o noivo capaz das maiores façanhas.

   Cavalgando já por baixo de água, Caio Carpo viu-se de repente coberto de vieiras. Mesmo assim conseguiu vir à superfície e aproximou-se da embarcação.

   - Quem sois e de onde vindes? - perguntou em alta voz.

   Dois homens responderam humildemente:

   - Atanásio e Teodoro, meu senhor. Vimos da longínqua cidade de Jaffa.

   Caio Carpo subira entretanto a bordo.

   - E que missão, estrangeiros, vos leva a cruzar estes mares?

   - Meu senhor - respondeu um deles -, transportamos para norte o cadáver do apóstolo Santiago, que em terras da Palestina sofreu os maiores tormentos por amor de Jesus e da nossa santa religião. Milagrosamente, apenas demorámos sete dias a chegar a estas paragens.

   Assombrado com tal prova de coragem e dedicação ao santo, Caio Carpo quis conhecer o Deus que levava aqueles estrangeiros a enfrentar tão dura e perigosa viagem. E, ao escutá-los, logo ali se converteu à fé cristã e recebeu o batismo. Quanto aos amigos do santo, prosseguiram viagem para o norte, levando o cavaleiro na lembrança. Sabiam que, daí em diante, a concha da vieira seria um sinal dos homens que fossem ao encontro de Santiago.

   Regressado, como que por milagre, à praia de Matosinhos, Caio Carpo contou a aventura à noiva e aos convidados. Tão espantoso foi o caso para todos quantos haviam presenciado a partida e o regresso do cavaleiro, e tão abismados ficaram ao escutarem a sua narrativa, que não tardou que a notícia se espalhasse por aquelas terras e que todos quisessem conhecer aquela estranha fé.

   Ainda hoje, na Galiza, onde muitos vão venerar o apóstolo aí sepultado, a concha da vieira continua a ser o seu símbolo.





sexta-feira, 6 de março de 2026

 

Os dois amigos

Lenda árabe

   Dois amigos viajavam pelo deserto, caminhando em amena conversa, apesar do Sol abrasador. Um deles, porém, sentindo-se contrariado pelo outro, encetou uma discussão. Erguia a voz, gesticulava e pouco faltou para insultar o companheiro. Em dado momento da contenda, não resistiu e esbofeteou-o.
   Admirado e ofendido, mas sem nada dizer, o amigo baixou-se e escreveu na areia. Hoje, o meu melhor amigo bateu-me no rosto.
   Seguiram viagem, tristes e em silêncio. Absortos nos seus pensamentos, fixavam os olhos num ondulante horizonte de dunas e já caminhavam com dificuldade sob o ardor  do Sol. Até que avistaram um oásis verde, emergindo da aldeia escaldante do deserto. Mais aliviados à sombra das tamareiras, resolveram banhar-se, comer e pernoitar no local.
   Afastou-se um para recolher galhos com que pretendia acender um pequeno fogo. E o que tinha sido esbofeteado despiu-se, mergulhou na lagoa do oásis e principiou a refrescar-se. Contudo, passados minutos, perdeu o pé. E em breve se afogaria, não fosse a ajuda do amigo que, ao escutar os gritos, largou tudo e acorreu ao chamamento, mergulhando na lagoa e arrastando o companheiro para a margem.
   Quando, ao fim de algum tempo, este se sentiu recuperado, pegou num estilete, dirigiu-se a uma pedra e nela escreveu: Hoje, o meu melhor amigo salvou-me a vida.
   Intrigado, o outro perguntou: 
   - Porque é que, depois de te bater, escreveste na areia, e agora, que te salvei, foste escrever a pedra?
   A sorrir, o primeiro respondeu:
   - Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever na areia, onde o vento do esquecimento e do perdão se encarrega de apagar as palavras. Quando, porém, faz por nós alguma coisa de verdadeiramente nobre, ah ... aí devemos gravar as palavras que o recordam na pedra da memória e do coração, onde nenhum vento do mundo as poderá apagar.
   E assim se acharam reconciliados. E comeram, beberam e conversaram alegremente. Depois puseram-se a contemplar a Lua e as estrelas até o cansaço os vencer. E mergulharam, por fim, num sono profundo e retemperador.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

 


A ilha de Timor

Lenda de Timor


   Há muitos e muitos anos, do outro lado do mundo, vivia num pântano um crocodilo. Como era já velho, faltava-lhe velocidade; raramente conseguia apanhar peixes para comer e, por isso, começava a sentir fome, fraqueza e desânimo.

   Saiu então do pântano e aventurou-se em terra, em busca de algum bicho que lhe matasse a fome. Mas o sol era ardente, o caminho longo e o crocodilo sentia-se sem força para continuar.

   Cheio de fome e sozinho, pensou que acabaria ali os seus dias, imóvel como uma pedra. Até que passou um rapaz. Ao ver o pobre animal naquele estado, sentiu pena e resolveu ajudá-lo a arrastar-se até uma ribeira. Aí o crocodilo pôde refrescar-se e alimentar-se um pouco. E, ao conversarem, percebeu que o sonho do rapaz era viajar e conhecer o mundo.

   Tão grato ficou o velho crocodilo que se ofereceu para levar o seu amigo às costas a passear pelas águas do rio e do mar. E assim atravessaram as ondas, dia e noite, noite e dia, rumo às terras onde nasce o sol.

   Mas um dia, já cansado, o crocodilo percebeu que não podia continuar. E como a fome de novo apertasse, não encontrou solução que não fosse comer o rapaz. Antes, porém, decidiu consultar outros animais, a fim de aliviar a consciência. E todos, da baleia ao macaco, o censuraram, fazendo-lhe ver como seria ingrato para quem o ajudara.

   Arrependido dos seus pensamentos, o crocodilo seguiu caminho, com o rapaz sempre às costas e sem perder o sol de vista. Quando as forças já o abandonavam, ainda pensou dar meia volta e regressar. Mas de repente sentiu o corpo aumentar de tamanho e transformar-se em terra e em pedra. Rapidamente se converteu numa ilha verde, cheia de montes, florestas e rios.

   O rapaz caminhou então por aquela bonita ilha e deu-lhe o nome de Timor, que em língua malaia quer dizer Oriente. E é por isso que Timor tem a forma de um crocodilo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

 


A meia de Natal

Lenda tradicional da Alemanha e dos países de língua inglesa


   Em tempos que já lá vão, havia um fidalgo cuja mulher morrera, deixando-o muito desgostoso com três filhas para criar.

   Encerrado no seu gabinete, o fidalgo afogava as mágoas desenhando e projetando objetos que, segundo ele, haviam de revolucionar e facilitar muito as vidas das pessoas: telhados de vidro, máquinas voadoras, carros sem cavalos e outras maravilhas que tais.

   Convencido da importância dos seus inventos, gastava com eles muito dinheiro. Um dia, dizia ele, as pessoas haviam de os apreciar devidamente e pagar bem por eles.

   A verdade é que, aos poucos, o fidalgo gastou tudo o que tinha e a família não teve outro remédio senão mudar-se para uma modesta casinha no campo, onde a vida era mais barata. As três filhas passaram a encarregar-se de todas as tarefas quotidianas. Limpavam, lavavam, cosiam, passajavam e  cozinhavam.

   Os anos foram correndo e chegou a altura de casar as filhas. O fidalgo andava triste e deprimido, porque não tinha o suficiente para lhes dar um dote e, sem ele, jamais elas encontrariam um marido.

   Uma noite, depois de terem lavado toda a sua roupa, as raparigas penduraram as meias na lareira para secarem. Nessa noite, o Pai Natal, sabendo do desespero do velho fidalgo, parou diante da casa. Olhou pela janela e viu que a família já se recolhera. Também reparou que as meias das meninas estavam penduradas na lareira. Então, decidido a ajudar, agarrou em três bolsinhas de ouro e, com pontaria certeira, atirou-as pela chaminé, fazendo com que aterrassem dentro de cada uma das meias.

   Na manhã seguinte, quando acordaram, as meninas descobriram, com alegria, que tinham o dinheiro suficiente para os dotes. E foi assim que o fidalgo pôde casar as três filhas e viver feliz para sempre.

   Ainda hoje, em várias partes do mundo, muitas são as crianças que penduram as meias na lareira na véspera de Natal.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025


 A gaita milagrosa

Conto tradicional de Portugal   


   Havia numa terra um homem que possuía uma gaita com estranhos poderes: sempre que tocava punha todos os ouvintes a bailar.

   Ora, certa ocasião, passava um sujeito com um burro carregado de louça e o homem da gaita pôs-se a tocar.

   Tanto o dono do jumento como o próprio animal começaram logo a bailar e, com tantos saltos em pouco tempo toda a louça ficou em cacos.

   Gritava o da louça ao tocador que parasse de tocar, mas este só tirou a gaita dos lábios quando já não restava inteira uma única peça de louça. Exasperado, o pobre homem foi queixar-se ao juiz e o tocador foi chamado a depor.

   - És acusado de ter quebrado a louça deste homem - disse ao gaiteiro o juiz, sentado no seu cadeirão.

   - Senhor doutor juiz, eu não sou culpado. Só toquei a minha gaita, e esse senhor e o burro dele puseram-se logo a dançar.

   - Tens contigo a gaita?

   - Tenho.

   - Então toca - ordenou o juiz.

   O gaiteiro tirou a gaita do bolso e começou a tocar. De imediato o dono da louça pegou numa cadeira e pôs-se a bailar. O juiz, que ia para tomar uma pitada de rapé da sua caixa de ébano, deu um salto e, sem parar de pular, batia com os dedos na caixa como se rocasse castanholas. E até a mãe do juiz, que estava entrevada num quarto ao lado, se levantou da cama bailando, batendo palmas e cantando:

Vá de folia

Vá de folia

Que há sete anos 

Me não mexia.

   E assim o escritório do juiz se transformou em animada sala de baile, pois até os tinteiros, o relógio, as cadeiras e outros móveis se puseram a saltar e a dançar.

   Afogueado, o juiz suplicou ao homem que parasse a tocatina, ao que ele obedeceu de imediato, pois viu que tanto o dono da louça como o juiz e a mãe suavam já em bica.

   Ainda a arfar e limpando o suor, disse o juiz ao tocador:

   - Podes ir-te embora sem culpa nem pena, porque és um homem bom: até curaste a minha mãe, que há anos se não mexia nem podia erguer-se da cama.

   E lá se foi o tocador, todo contente.

   Só uma coisa a história não conta: é se a mãe do juiz voltou para a cama.


   

terça-feira, 16 de setembro de 2025



 O avarento

   

   Havia numa terra um homem muito rico, e nenhuma mulher queria casar com ele porque tinha unhas de fome, e era um cheira vinténs. Uma rapariga mais esperta deixou-se conversar por ele, e quando veio a falar-lhe em casamento, respondeu logo que sim! O velho ficou contente, mas disse:

   Menina! eu quero desenganá-la; olhe que na minha casa não se acende lume, e um vintém chega para todas as despesas da semana. Veja lá o que faz.

   A rapariga, que tinha a sua travada, não tornou atrás com a palavra, e casaram. O velho não alargava os cordões à bolsa, dava por conta as castanhas, e o pão secava-o ao sol para ser mais duro e se comer menos. Mas a rapariga, que era ladina, tratou mais foi de comer às escondidas; deu com um falso onde o velho tinha bastante dinheiro, comprava galinhas, depenava-as e guardava as penas em uma arca, para que o velho o não soubesse. Assim ia andando, e estava gorda e rosebunda. O velho, que mirrava e tinha a pele em cima dos ossos, admirava-se do que via, e disse-lhe:

   - Sempre te vai muito bem na minha casa. Olha que as sopas do teu pai nunca te engordaram tanto.

   A rapariga, enjoada com a sovinice do velho, não teve mão em si, e respondeu:

   - Você sempre é o pai da miséria! Se eu comesse só o que me dá, já tinha morrido umas poucas de vezes. Olhe, quer saber quem me dá estas cores? Veja esta arca.

   E abriu uma grande caixa, que estava cheia até cima de penas de galinha:

   - Tenho comido aquilo tudo!

   O velho, assim que tal viu, caiu para a banda com um ataque; levaram-no para a cama, e vieram os vizinhos aos gritos da mulher, que se lamentava. Assim que entraram no quarto, o velho ainda falava, mas só dizia o resto das frases que tinha ouvido:

   - Tudo... a minha mulher... Come... Tudo a minha mulher.

   Disse ela para os vizinhos:

   - Sejam boas testemunhas, que meu marido diz que deixa tudo à sua mulher.

   O velho morreu com a boca retorcida, a mulher levantou-se com tudo o que havia em casa, e os parentes do velho ficaram a chuchar no dedo.


Teófilo Braga, in Contos Tradicionais do Povo Português

sábado, 6 de setembro de 2025

 




O SUAVE MILAGRE


   Nesse tempo, Jesus ainda se não  afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do lago de Tiberíade; mas a nova dos seus milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar.

   Uma tarde, um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do reino de Deus, curando todos os males humanos. E, enquanto descansava, sentado à beira da Fonte dos Vergéis, contou ainda que esse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo de um decurião romano só com estender sobre ele a sombra das suas mãos;  e que noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerasenos, onde começava a colheita do bálsamo, ressuscitara a filha de Jairo, homem considerável e douto, que comentava os Livros na Sinagoga. E como em redor, assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe perguntassem se esse era, em verdade, o Messias da Judeia, e se diante dele refulgia a espada de fogo, e se ladeavam, caminhando como as sombras de duas torres, as sombras de Gog e de Magog - o homem, sem mesmo beber daquela água tão fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja até Áscalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar; as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam pelos caminhos se além da esquina do muro, ou de sob o sicómoro, não surgiria uma claridade; e nos bancos de pedra, às portas da cidade, os velhos correndo os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tão sapiente certeza, os ditames antigos.

   Ora então vivia em Enganim um velho, por nome Obed, duma família pontifical de Samaria, que sacrificara nas aras do monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas - e com o coração tão cheio de orgulho como o seu celeiro de trigo. Mas um vento árido e abrasado, esse vento de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, só deixara, em torno dos olmos e pilares despidos, sarmentos, cepas mirradas, a parra roída de crespa ferrugem. E Obed, agachado à soleira da sua porta, com a ponta do manto sobre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.

   Apenas ouvira falar desse novo Rabi da Galileia, que alimentava as multidões, amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras - Obed, homem lido, que viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros, tão costumados na Palestina, como Apolónio, ou Rabi Ben-Dossa, ou Simão, o Subtil. Esses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrelas, para eles sempre claras e fáceis nos seus segredos: com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Egito, e agarram entre os dedos as sombras das árvores, que conduzem, como toldos benéficos, para cima das eiras, à hora da sesta.  Jesus da Galileia, mais novo, com magias mais viçosas decerto,  se ele largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria os seus vinhedos. Então Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Galileia o Rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no país de Issacar.

   Os servos apertaram os cinturões de coiro - e largaram pela estrada das caravanas, que, costeando o lago, se estende até Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves finas do monte Hérmon. Depois, na frescura duma manhã macia, o lago de Tiberíade resplandeceu diante deles, transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu ,todo orlado de prados floridos, de densos vergéis, de rochas de pórfiro, e de alvos terraços por entre os pomares, sob o voo das rolas. Um pescador que desamarrava preguiçosamente a sua barca duma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O Rabi de Nazaré? Oh! desde o mês de Ijar, o Rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as águas.

   Os servos, correndo,, seguiam pelas margens do rio, até diante do vau, onde ele se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imóvel e verde, à sombra dos tamarinhos. Um homem da tribo dos Essénios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, pela beira da água com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram-no, porque o povo ama aqueles homens de coração tão limpo, e claro, e cândido como as suas vestes cada manhã lavadas em tanques purificados. E sabia ele da passagem do novo Rabi da Galileia, que como os Essénios ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados? O essénio murmurou que o Rabi atravessara o oásis de Engadi, depois se adiantara para além ... - Mas onde, o «além»? - Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o essénio mostrou as terras de além-Jordão, a planície de Moab. Os servos vadearam o rio e debalde procuraram Jesus, arqueando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Macaur ... No poço de Jacob repousava uma larga caravana, que conduzia para o Egito mirra,  especiarias e bálsamos de Gilead; os cameleiros, tirando a água com os baldes de coiro, contaram aos servos de Obed que em Gadara, pela lua nova, um Rabi maravilhoso, maior que David ou Isaías, arrancara sete demónios do peito de uma tecedeira, e que,  à Sua voz, um homem, degolado pelo salteador Barrabás, se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperançados, subiram logo açodadamente pelo caminho dos peregrinos até Gadara, cidade de altas torres, e ainda mais longe até às nascentes de Amalha ... Mas Jesus, nessa madrugada, seguido por um povo que cantava e sacudia ramos de mimosa, embarcara no lago, num batel de pesca, e à vela navegara para Magdala. E os servos de Obed, descoroçados, de novo passaram o Jordão na Ponte das Filhas de Jacob. Um dia, já com as sandálias rotas dos longos caminhos pisando já as terras da Judeia romana, cruzaram com um fariseu sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota reverência, detiveram o homem da Lei. Encontrara ele por acaso esse profeta novo da Galileia que, como um Deus passeando na Terra, semeava milagres? A adunca face do fariseu escureceu enrugada, e a sua cólera retumbou como um tambor orgulhoso:

   - Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusalém? Só Jeová tem força no Seu templo. Da Galileia surdem os néscios e os impostores ...

   E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de dísticos sagrados - o furioso doutor saltou da mula, e, com as pedras da estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: Raca! Raca! e todos os anátemas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande foi a desconsolação de Obed, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam - e, todavia, radiantemente, como uma alvorada por detrás de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galileia.

   Por esse tempo, um centurião romano, Publius Septimus, comandava o forte que dominava o vale de Cesareia até à cidade e ao mar. Publius, homem áspero, veterano da campanha de Tibério contra os Partos, enriquecera durante a revolta de Samaria com presas e saques, possuía minas na Ática, e gozava, como favor supremo dos deuses, a amizade de Flaccus, legado imperial da Síria. Mas uma dor roía a sua impiedade muito poderosa, como um verme rói um fruto muito suculento. Sua filha única, para ele mais amada que a vida e bens, definhava com um mal subtil e lento, estranho mesmo ao saber dos esculápios e mágicos que ele mandara consultar a Sídon e a Tiro. Branca e triste como uma lua num cemitério, sem um queixume, sorrindo palidamente a seu pai, definhava, sentada na alta esplanada do forte, sob um velário, alongando saudosamente os negros olhos tristes pelo azul do mar de Tiro, por onde ela navegara de Itália, numa opulenta galera. Ao seu lado,, por vezes, um legionário, entre as ameias, apontava  vagarosamente ao alto a flecha, e varava uma grande águia, voando de asa serena, no céu rutilante. A filha de Septimus, seguia um momento a ave, torneando até bater morta sobre as rochas: - depois, com um suspiro, mais triste e mais pálida, recomeçava a olhar para o mar.

   Então Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Corazim, deste Rabi admirável, tão potente sobre os espíritos, que sarava os males tenebrosos da alma, destacou três decúrias de soldados para que o procurassem pela Galileia, e por todas as cidades da Decápole, até à costa de Áscalon. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira - e as suas sandálias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sobre as lajes de basalto da estrada romana, que desde Cesareia até ao lago corta toda a Tetrarquia de Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no topo das colinas, por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia, invadiam os casais, rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a palha das medas; e as mulheres, assustadas, para os amansar, logo acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que eles bebiam dum trago, sentados à sombra dos sicômoros. Assim correram a Baixa Galileia e, do Rabi, só encontraram o sulco luminoso nos corações. Enfastiados com as inúteis marchas, desconfiando que os Judeus sonegassem o seu feiticeiro para que os romanos não aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tumulto a sua cólera, através da piedosa terra submissa. À entrada das pontes detinham os peregrinos, gritando o nome do Rabi, rasgando os véus às virgens; e, à hora em que os cântaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estritas dos burgos, penetravam nas sinagogas, e batiam sacrilegamente com os punhos das estradas nas «Thebahs», os santos armários de cedro que continham os livros sagrados. Nas cercanias de Hébron, arrastaram os solitários pelas barbas para fora das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o Rabi: - e dois mercadores fenícios que vinham de Jopé com uma carga de malóbatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus pagaram por esse delito cem dracmas a cada decurião. Já agente dos campos, mesmo os bravios pastores de Idumeia, que levam as reses brancas para o templo, fugiam espavoridos para as serranias, apenas luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando violento. E da beira dos eirados, as velhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos desgrenhados, e arrojavam sobre eles as más-sortes, invocando a vingança de Elias. Assim, tumultuosamente erraram até Áscalon: não encontraram Jesus e retrocederam ao longo da costa, enterrando as sandálias nas areias ardentes.

   Uma madrugada, perto de Cesareia, marchando num vale, avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e claro pórtico dum templo.

   Um velho, de compridas barbas brancas, coroado de folhas de louro, vestido com uma túnica cor de açafrão, segurando uma curta lira de três cordas, esperava gravemente, sobre degraus de mármore, a aparição do Sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo sacerdote. Conhecia ele um novo profeta que surgira na Galileia, e tão destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho? Serenamente, alargando os braços, o sereno velho, exclamou por sobre a rociada verdura do vale:

   - Oh romanos! pois acreditais que em Galileia ou Judeia apareçam profetas  consumando milagres? Como pode um bárbaro alterar a ordem instituída por Zeus? ... Mágicos e feiticeiros são vendilhões, que murmuram palavras ocas, para arrebatar a espórtula dos simples ... Sem a permissão dos imortais nem um galho seco pode tombar da árvore, nem seca folha pode ser sacudida na árvore. Não há profetas, não há milagres ... Só Apolo Délfico conhece o segredo das coisas!

   Então, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os soldados recolheram à fortaleza de Cesareia. E grande foi o desespero de Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tiro e, todavia, a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia sempre mais consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do Hérmon e, através dos hortos, reanima e levanta as açucenas pendidas.

   Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega dum cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito, a que ela o criara, para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos, espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre sacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!

   Um dia, um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse Rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava com olhos famintos. - E esse doce Rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava?  O mendigo suspirou. -Ah, esse doce Rabi! Quantos O desejavam, que se desesperançavam! A Sua fama andava por sobre toda a Judeia como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza;  mas, para enxergar a claridade do Seu rosto, só aqueles ditosos que o Seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus,  O chamassem com promessas a Enganim: Septimus, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus, O conduzissem, por seu mando, a Cesareia. Errando, esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Septimus. E todos voltaram, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.

   A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse Rabi, que amava as criancinhas ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:

   - Oh filho! E como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura do Rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areias e colinas, desde Corazim até ao país de Moab. Septimus é forte, e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde Hébron até ao mar! Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que O encontrasse, como convenceria eu o Rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?!

   A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha,  murmurou:

   - Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequenino, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!

   E a mãe, em soluços:

   - Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce Rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes O encontram. O céu O trouxe, o céu O levou. E com Ele para sempre morreu a esperança dos tristes.

   De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:

   - Mãe, eu queria ver Jesus...

   E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:

   - Aqui estou.


Eça de Queirós

   


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