terça-feira, 16 de setembro de 2025



 O avarento

   

   Havia numa terra um homem muito rico, e nenhuma mulher queria casar com ele porque tinha unhas de fome, e era um cheira vinténs. Uma rapariga mais esperta deixou-se conversar por ele, e quando veio a falar-lhe em casamento, respondeu logo que sim! O velho ficou contente, mas disse:

   Menina! eu quero desenganá-la; olhe que na minha casa não se acende lume, e um vintém chega para todas as despesas da semana. Veja lá o que faz.

   A rapariga, que tinha a sua travada, não tornou atrás com a palavra, e casaram. O velho não alargava os cordões à bolsa, dava por conta as castanhas, e o pão secava-o ao sol para ser mais duro e se comer menos. Mas a rapariga, que era ladina, tratou mais foi de comer às escondidas; deu com um falso onde o velho tinha bastante dinheiro, comprava galinhas, depenava-as e guardava as penas em uma arca, para que o velho o não soubesse. Assim ia andando, e estava gorda e rosebunda. O velho, que mirrava e tinha a pele em cima dos ossos, admirava-se do que via, e disse-lhe:

   - Sempre te vai muito bem na minha casa. Olha que as sopas do teu pai nunca te engordaram tanto.

   A rapariga, enjoada com a sovinice do velho, não teve mão em si, e respondeu:

   - Você sempre é o pai da miséria! Se eu comesse só o que me dá, já tinha morrido umas poucas de vezes. Olhe, quer saber quem me dá estas cores? Veja esta arca.

   E abriu uma grande caixa, que estava cheia até cima de penas de galinha:

   - Tenho comido aquilo tudo!

   O velho, assim que tal viu, caiu para a banda com um ataque; levaram-no para a cama, e vieram os vizinhos aos gritos da mulher, que se lamentava. Assim que entraram no quarto, o velho ainda falava, mas só dizia o resto das frases que tinha ouvido:

   - Tudo... a minha mulher... Come... Tudo a minha mulher.

   Disse ela para os vizinhos:

   - Sejam boas testemunhas, que meu marido diz que deixa tudo à sua mulher.

   O velho morreu com a boca retorcida, a mulher levantou-se com tudo o que havia em casa, e os parentes do velho ficaram a chuchar no dedo.


Teófilo Braga, in Contos Tradicionais do Povo Português

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