quarta-feira, 1 de abril de 2026

 


História de Caio Carpo

Lenda de Portugal


   Esta história passou-se há muitos e muitos séculos, muito antes ainda de Portugal existir. Corria o ano de 44 e a Península Ibérica era parte do Império Romano. Uma multidão festejava as bodas do ilustre Caio Carpo, não longe do local onde hoje fica a cidade de Matosinhos. A sua noiva era Cláudia, uma linda rapariga nascida em Gaia, na família de um pretor romano. Gente rica e poderosa, está bom de ver.

   A música animava aquela hora feliz. Bebia-se, comia-se, bailava-se e alguns cavaleiros exercitavam-se com as armas.

   No calor da festa, Caio Carpo decidiu montar no seu belo cavalo branco e entrar de rompante pelo mar dentro, mostrando a força e destreza de que era capaz. Mas o cavalo não abrandou o galope, cortava as ondas, como que atraído por uma embarcação que passava ao largo, com a proa voltada a norte. E tão longe se aventurou que o perderam de vista os que na praia admiravam aquele prodígio. O coração de Cláudia bateu mais rápido, embora soubesse o noivo capaz das maiores façanhas.

   Cavalgando já por baixo de água, Caio Carpo viu-se de repente coberto de vieiras. Mesmo assim conseguiu vir à superfície e aproximou-se da embarcação.

   - Quem sois e de onde vindes? - perguntou em alta voz.

   Dois homens responderam humildemente:

   - Atanásio e Teodoro, meu senhor. Vimos da longínqua cidade de Jaffa.

   Caio Carpo subira entretanto a bordo.

   - E que missão, estrangeiros, vos leva a cruzar estes mares?

   - Meu senhor - respondeu um deles -, transportamos para norte o cadáver do apóstolo Santiago, que em terras da Palestina sofreu os maiores tormentos por amor de Jesus e da nossa santa religião. Milagrosamente, apenas demorámos sete dias a chegar a estas paragens.

   Assombrado com tal prova de coragem e dedicação ao santo, Caio Carpo quis conhecer o Deus que levava aqueles estrangeiros a enfrentar tão dura e perigosa viagem. E, ao escutá-los, logo ali se converteu à fé cristã e recebeu o batismo. Quanto aos amigos do santo, prosseguiram viagem para o norte, levando o cavaleiro na lembrança. Sabiam que, daí em diante, a concha da vieira seria um sinal dos homens que fossem ao encontro de Santiago.

   Regressado, como que por milagre, à praia de Matosinhos, Caio Carpo contou a aventura à noiva e aos convidados. Tão espantoso foi o caso para todos quantos haviam presenciado a partida e o regresso do cavaleiro, e tão abismados ficaram ao escutarem a sua narrativa, que não tardou que a notícia se espalhasse por aquelas terras e que todos quisessem conhecer aquela estranha fé.

   Ainda hoje, na Galiza, onde muitos vão venerar o apóstolo aí sepultado, a concha da vieira continua a ser o seu símbolo.





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