domingo, 23 de março de 2025


Lenda de Seteais


   Seteais é um dos mais belos recantos da serra de Sintra.

   Quando, em 1147, Afonso Henriques e os cruzados estrangeiros conquistaram Lisboa, Sintra rendeu-se sem resistência, porque ficava a partir de então isolada do restante território árabe. Os mouros da localidade conseguiram continuar em paz na região, que, tal como agora, era fertilíssima e agradável. Mantiveram ao longo dos séculos a ocupação a que já nessa época se dedicavam de preferência: a agricultura. Os descendentes destes "vencidos" constituem o tipo humano, quase puro, a que chamamos saloios.

   Segundo a lenda, um dos primeiros cavaleiros cristãos a subir a serra de Xentra, como os mouros chamavam a Sintra, foi D. Mendo de Paiva.  No meio da confusão da debandada de uns e chegada de outros, encontrou-se junto a uma pequena porta secreta por onde fugiam vários mouros da fortaleza. Entre eles viu uma moura muito bonita, acompanhada pela velha aia. Ao dar com os olhos no cristão, a moura Anasir suspirou por se sentir descoberta, e a velha, que ainda não reparara no cavaleiro, apressou-se a pedir-lhe que não suspirasse. Porém, reparando no olhar da ama, fixo num ponto determinado, seguiu-o e viu finalmente o inimigo, que sorridente lhe disse:

   - Acaba o que ias dizendo!

   Mas a velha aia, Zuleima, de sobrolho carregado, respondeu-lhe:

   - O que tenho para dizer não serve para ouvires, cáfir! Os cristãos já têm tudo o que queriam: os nossos bens, as nossas terras, o castelo. Vai-te! Vai-te e deixa-nos em paz, conforme o combinado.

   - Vai-te tu, velha! A rapariga é minha prisioneira!

   A moura, ao ouvir tal coisa, suspirou novamente, de medo e comoção. A velha, ao ouvir aquele novo ai, achou que era melhor confessar o segredo ao cristão:

   - Não me digas mais nada cristão! Não digas mais nada, que a minha ama carrega desde o berço uma terrível maldição!...

   - Como assim, velha?! - perguntou o cavaleiro9, ao mesmo tempo que a moura dava o terceiro suspiro.

   - Ah, cavaleiro! À nascença a minha ama foi amaldiçoada por uma feiticeira que odiava sua mãe por lhe ter roubado o homem que amava. Fadou-a a morrer no dia em que desse sete ais... e como vês já deu três!

   D. Mendo deu uma alegre gargalhada, e a jovem outro ai.

   - Não acredito nessas coisas, velha! Olha, a partir de agora ambas ficarão à minha guarda. Eu quero para mim a tua bela ama!

   A moura suspirou de novo e a velha Zuleima, numa aflição sem limites, gritou:

   - Ouviste cavaleiro, ouviste?! É o quinto ai! Que Alá lhe possa valer!

   - Não tenhas medo! Espera aqui um pouco... Voltarei em breve para vos levar a um sítio sossegado!

   O cristão afastou-se rapidamente e, assim que desapareceu dentro das muralhas, um grupo de mouros que ouvira a conversa surgiu subitamente para roubar as duas mulheres. Com um golpe de adaga cortaram a cabeça à velha, que nem tempo teve para dar um ai. Anasir é que, ao ver a sua velha aia morrer daquele modo súbito e cruel, soltou um novo e dolorido ai. Era o sexto, e o sétimo foi a última coisa que disse, no momento em que viu a adaga voltear para lhe cair sobre o pescoço.

   Quando pouco depois D. Mendo voltou com uma escolta, ficou tristemente espantado: afinal cumprira-se a maldição!

   D. Mendo jurou vingança e a partir desse dia tornou-se o cristão mais desapiedado que os mouros jamais  encontraram no seu caminho.

   E, em memória da moura que desejara e uma maldição matara, chamou àquele recanto de Sintra, Seteais.

segunda-feira, 17 de março de 2025

 



Lenda de Nossa Senhora da Ajuda

Nossa Senhora da Ajuda é uma localidade que se situa na freguesia de Arranhó, município de Arruda dos Vinhos, em Portugal.


   Conta-se que há muito, muito tempo, costumava andar uma pastorinha a apascentar o seu rebanho no local onde hoje se situa a povoação de Nossa Senhora da Ajuda.
   Certo dia, enquanto descansava sobre uma pedra, apareceu-lhe uma imagem linda e luminosa que lhe pediu para ser construída naquele lugar uma ermida em sua honra. O pai da pastora, Afonso Anes, quando a filha lhe contou que tinha sido visitada pela Rainha dos Céus, acusou-a de estar a mentir e proibiu-a de voltar a tocar no assunto.
   Porém, dias depois, enquanto vigiava o rebanho, a imagem voltou a aparecer à pastorinha, ainda mais luminosa, insistindo no pedido de ser construída uma ermida naquele local.
   A menina, embora receosa da reação do pai, contou-lhe de novo o sucedido, tendo este respondido que, da próxima vez que fosse visitada pela Senhora, lhe dissesse que não podia ser construída nenhuma ermida naquele local, pois ali não havia água, o que impediria a realização de qualquer obra.
   Dias depois, incomodado com a insistência da filha, Afonso Anes seguiu-a até ao local onde, supostamente, havia de aparecer a Senhora muito formosa. Qual não foi o seu espanto, quando viu a rapariga levantar uma pedra e de lá começar a jorrar água fresca, em muita abundância.
   Verificando tratar-se de um milagre, o pai da pastorinha pediu-lhe perdão, cedendo o terreno para a ermida e mobilizando toda a gente do lugar para ajudar na sua construção. Agradeceu ainda à Virgem ter escolhido a sua humilde filha, como veículo de tão nobre pedido.
   A partir desse dia, nunca mais faltou água naquele lugar abençoado, sendo atualmente o Santuário de Nossa Senhora da Ajuda, um dos maiores locais de devoção de Arruda dos Vinhos.




segunda-feira, 3 de março de 2025

 LENDA do GALO de BARCELOS





A lenda do Galo de Barcelos é uma lenda popular de Portugal associada ao monumento seiscentista situado no Paço dos Condes de Barcelos.


Um dia, os habitantes de Barcelos andavam alarmados com um crime, do qual ainda não se descobrira o criminoso que o cometera.

Um belo dia, apareceu um galego que se tornou suspeito. As autoridades resolveram prendê-lo, apesar de o pobre jurar inocência, afirmando que estava apenas de passagem, em peregrinação a Santiago de Compostela, para cumprir uma promessa.

Condenado à morte na forca, o homem pediu que o levassem à presença do juiz que o condenara. Foi-lhe concedida a autorização e levaram-no à residência do magistrado, que nesse momento se banqueteava com alguns amigos. O galego voltou a afirmar a sua inocência e, perante a incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a mesa, exclamando:

- É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem!

O juiz empurrou o prato para o lado e ignorou o apelo, Mas quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo ergueu-se da mesa e cantou.O juiz compreendeu o seu erro e correu para a forca onde descobriu que o galego se salvara graças a um nó mal feito.

O homem foi imediatamente solto e mandado em paz.

Passado algum tempo foi feito o Galo de Barcelos e dado como encerrado o caso.

Alguns anos mais tarde, o galego teria voltado a Barcelos para esculpir o Cruzeiro do Senhor do Galo em louvor à Virgem Maria e a Santiago Maior, monumento que se encontra no Museu Arqueológico de Barcelos.



  História de Caio Carpo Lenda de Portugal    Esta história passou-se há muitos e muitos séculos, muito antes ainda de Portugal existir. Co...